… e ficou um tempo deitada pensando. Estava achando muito… como escolher a palavra? Longe, impessoal talvez. Hesitou uma vez em levantar da cama, chegou a colocar um pé no chão, sentiu o frio do piso, parou – será que ela sentiria este frio no corpo todo mais tarde? Mexeu a cabeça, espantou esses pensamentos e discou o número dela. Que demora para atender!…
“Alô?”
“Ei… pode me encontrar mais tarde no parque?”
Colocou uma camisa com listras rosa, dobrou as mangas e foi. No caminho estava nervosa, até um pouco infeliz, com um pressentimento ruim, fechou a cara. Subiu as escadas que davam pra um jardim suspenso, olhou em volta, procurou um rosto conhecido e sem esperar sentiu seu ombro tocado; assustou-se e no mesmo instante sorriu e tudo o que sentira até aquele momento se dissolveu de súbito. Abraçaram-se e foram procurar um lugar para sentar.
Às vezes as coisas a serem ditas são tantas, mas tantas que a gente se cala. E aquela pessoa de camisa rosa-listrada, eu, senti o vento arrepiar meus instintos. Fiquei constrangida com o silêncio e tentei começar…
“Não fiz você vir até aqui a toa. É o seguinte: eu te escrevi uma carta… fiz letra caprichada, perfumei o papel, comprei envelope vermelho, coloquei endereço e tudo. Mas achei um pouco longe, fraco, frio. E também não escrevi tudo o que queria dizer e nem poderia. Sei que você entenderá muito mais só de me olhar, deve estar entendendo já. Quero que você entenda que pra mim é difícil fazer isso, assim como é difícil pra você escutar. Talvez tivesse sido mais fácil entregar-te a carta, que eu li, reli, corrigi e o escambau.
De novo ela fez silêncio. Por um momento se sentiu frágil – não havia nada entre ela e o infinito do céu, achou tudo aquilo tão grande, se sentiu tão pequena. As cores eram tão intensas, o verde da grama, o azul do céu, o vemelho da boca… Então sentiu-a tocar sua mão.
“Pode falar, você sabe que a gente sempre acaba se entendendo…”
Sentiu-se crescendo, forte, capaz de tocar o céu e retomou…
“…Certo. Olha, às vezes me canso de fingir que não te quero o tempo todo, que não desejo planejar viagens, dividir dúvidas e alegrias, dormir junto como se isso fosse a coisa mais normal entre a gente. Não quero mais fingir que não quero preparar o jantar pra você, esperar você trazer o vinho… beijar e pegar na sua mão vendo um filme chato. Ir ao parque correr, andar, passear, fazer nada… sem pressa porque o que a gente está vivendo não vai acabar. Escutou? Eu quero tudo isso com você. Quero ser uma pessoa só sua, que você saiba que é você que eu desejo, que eu amo, quero cuidar, quero brigar até. Não importa o que, mas eu quero … e quero com você. Quero te abraçar e sentir você só minha. Só minha…”
Olhou nos olhos dela e sentiu um silêncio aterrorizante, talvez fosse o tudo ou o nada. Ela ainda não saberia.
Eu ainda não sei.

