Ela: Mulher com passado negro e enormes aspirações futuras. Neo-romântica, agnóstica, interessada.
A Outra: Mulher com enormes aspirações futuras e passado presente. Independente, sincera e romântica.
Cenário I:
Sala branca com três ou quatro móveis – pufe bag lounge preto, prateleira clara com livros e aparelho de som, mesa oval branca de centro, escrivaninha clara com luminária fotográfica, cadernos, folhas espalhadas, canetas, um computador. No chão um tapete indiano, no canto ao lado da prateleira uma palmeira e finos bambus; na janela uma cortina Blackout. Na parede contrária à escrivaninha 1300 fotos em preto e branco como papel de parede. No meio de todas elas uma foto colorida de um lírio branco caído num lençol branco bagunçado.
Cena I:
Ela sentada em frente ao computador estudando para a prova do dia seguinte. Os olhos liam e reliam o artigo científico – o tempo que tinha para dormir, comer e fazer suas necessidades humanas ela deveria usar para conseguir a nota do semestre. Esfregou o rosto, tirou o resto do blush que sobrou do dia cansativo, tomou um gole do café que pegou no caminho de casa e tentou fixar os olhos no dever. Piscou lento, girou o pescoço em dois sentidos, franziu o cenho, piscou mais lento – no espaço de tempo em que a pálpebra desce, no seu inconsciente perdido a imagem da Outra, várias imagens, sons, sentidos -, os olhos abertos, fixos, vivos; uma mensagem no seu email de A Outra. Os neurotransmissores correndo a solta no corpo dela, o coração a mil, o estômago retraído e gelado, a mente correndo… Clicou na mensagem, o assunto – Being boring. Devorou cada palavra com a fome de um leão no deserto. Regurgitou, mastigou, engoliu.
Ela – Quinta-feira depois da minha aula? A noite eu tenho reunião no C.A. …
Pega seu celular, disca o número da representante do conselho.
Ela – Júlia, não vou poder ir à reunião na quinta a noite… É.. não, nem se eu chegar atrasada, não posso mesmo. Sim. Depois me conte sobre o que conversarem. Até.
Desliga o celular.
Ela – Mas assim? Depois de tanto tempo? Meu Deus!!!!!! Preciso ir ao cabeleireiro, as unhas, depilação… Aiiii, não me dei conta de como perdi tempo pra mim nesses meses!
Vai ao banheiro, se olha no espelho, joga água fria, volta para o computador, lê novamente a mensagem – um convite para um café, uma conversa; beijo com saudade.
Ela – Saudade? Achava que nem se lembrava mais de mim…
Decide responder. Começa a escrever mas está cansada demais e deita-se um pouco no pufe, um copo com leite gelado e coloca uma música – Qualqu’un m’a dit .
O som entrando por todos os poros do seu corpo : qualqu’un m’a dit que tu m’aimais encore.. serais ce possible alors ? Adormece e o cursor pisca na tela do computador, parado na frase «… depois me dei conta de que ainda te amo… ».
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A Cena II ainda não me acometeu.