Ela e Eu
Ela não atendeu na hora que liguei. A campainha soou não sei quantas vezes
dentro daquela sala que eu conheço de cor. O sofá cheio de almofadas, o jornal
espalhado pelo chão, o som ligado mas sem tocar:”Tô com preguiça de levantar”.
Na parede os quadros que presenciaram o sexo e as conversas absurdas de todas
as madrugadas. Discussões, até. Brigar é coisa normal – ninguém gosta de quem
é exatamente igual. A diferença é que ela sempre tem de dar a última palavra.
E eu querendo dormir.
Terça é dia de feira, portanto é dia de peixe no almoço e também de flor.
Sandália havaiana jogada do lado da cama, toalha no chão – eu acho lindo ela
de cabelo molhado. Tantas vezes acordei com o barulho do secador invadindo meu
sonho. Não gosto de pasta de dente que gela, tenho aflição. Prefiro dormir do
lado direito, mas é do lado esquerdo que fica o telefone. Quando tá chovendo a
porta da frente incha e range quando se abre, dá pra ouvir o chuveiro balançando.
A coberta tá toda embolada. Eu sinto calor, ela morre de frio. Mas, no meio da
noite, a gente se encontra.
No avião fiquei olhando o mar pela janela. Levantei o braço da poltrona, não
tinha ninguém no meio. Quando estico a perna sempre acho que ela vai botar a sua
por cima. Como no cinema. Pra mim o mundo se divide em duas categorias de pessoas:
aquelas que chupam toda a bala durante o trailer, e aquelas que só o fazem depois
que o filme começa. Ela espera. Eu não. Será que é por isso que eu a amo tanto?
Nando Reis


