Estou pronta para vomitar.
Eu levantei da cama, coloquei um jeans sujo cheirando a cigarro, um moletom cinza, óculos escuro, prendi o cabelo bem alto, queria parecer qualquer coisa assim, tipo um pássaro com aqueles topetes estranhos. Nem estava frio, mas eu queria o moletom. Comprei açúcar, limão, soda e hortelã.
Antes eu tinha lembrado do Bacardi branco na geladeira, do lado de um monte de catchups e maioneses. Decidi que precisava tomá-lo. Cheguei e preparei meia caneca de mojito e coloquei em uma taça de champagne. Nada a ver. Não medi nada, mas ficou bom.
Antes disso tudo eu fiquei irritada na cama porque coloquei uma luz perto e a luz estava fazendo parecer quente e sujo. Eu deitei para ler… coloquei uma música bem baixinho e peguei os Morangos Mofados. aí quando ia começando a ler a música mudou e a voz do cara lá cantou Strawberry fields forever…. Tá, é um lugar, mas é morango, ué. Mas o mais engraçado é que eu lia este livro antes de parar para comprar um café pra viagem e depois de ler a parte “…, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar, enquanto ele olhava para o osso descarnado.” E é lógico que ele falava de uma perna de galinha. Quando peguei o café e saí de lá, subindo uma travessa da Av. Paulista, eu olho para o chão e vejo uma perna de galinha descarnada. Eu ri e fui pisando nas listras brancas dos pedestres.
Aí eu fico achando que o Caio devia ser uma pessoa bem louca, que vivia vomitando tudo o que lhe afetava. E até mesmo o que não lhe afetava.
Eu me sinto quando o leio. Sinto até uma vontade congelante de tragar um pouco de aventura.
Vou pegar um livro aqui em cima e escrever alguma coisa dele, só porque me sinto um pouco sem o que falar… Ah, o Elogio da Loucura não é muito bom pra agora, apesar de conter uma pergunta pertinente: O que seria da vida sem a volúpia, sequaz da Loucura?
Sem a loucura. Meus disas têm sido sem loucura, tão iguaizinhos como a chuva. A chuva sempre é chuva, às vezes forte às vezes fraca, mas chuva. Os dias são assim, às vezes brilhantes, às vezes nebulosos. E as pessoas também… umas são mais intensas, outras são fantoches.
but we all pump the same red blood into our veins.
Não queria falar nada sobre ela agora. Mas sinto meu coração palpitar. Não de dar palpite, mas de pulsar.
Eu sinto até meu sangue mais fluido… que corre mais rápido mas deixa ofegante.
Só me desiludi. Mas tenho a vontade como sempre… não importa o que tenha falado nem feito. Nem há felicidade falsa, enquanto dura é verdadeira!. Porque um dia de felicidade que ela consegue me dar é tão anestesiante quanto aquela coisa que injetam na nossa veia pra fazer cirurgia grande.
E é muito verdadeiro. Não importa se depois ela pense e ache que não, que não pode nunca se apaixonar por mim. Nem me fodo pra isso… paixão, amor, o escambau.. que corra tudo pelos esgotos. Pra mim só importa o momento. E o momento eu sei que é meu. É a única parte da minha vida que eu não penso no depois… estranhamente eu vivo o agora pensando como vou lembrar disso amanhã. E já falo como se fosse passado.
Eu tomo um gole dessa coisa alcoolica, limpo os lábios e mordo o inferior. A boca fica deveras vermelha… e lembro que ela gosta disso, e eu gosto da boca violenta dela.
Violenta de beijos, mordidas, chupadas e palavras. Tudo me afeta e me comove.
Move. Porque senão tudo fica assim estático e eu só leio essas palavras nessas folhas amareladas e sinto tanta vontade de ter uma sala só minha. Só quero a sala.
Quero um quadrado de área grande, sem quase nenhum móvel.. mas um toca-discos, um piano, um tapete e muitas almofadas. Sem TV. Flores e meia-luz.
Quero uma parede bordô e a cortina cru. Um quadro preto e branco com uma foto que eu tirei quando fui pra uma cidade estranha e comi a camareira.
Eu gosto dessa sensação de resolver problemas complexos de física e sentar num tapete fofo escutando qualquer coisa antiga.
Mas mesmo que isso aconteça e eu tenha esse meu quadrado particular, eu vou colocar um moletom, tomar algo com muito gelo e esperar tocar o celular com a música “uh, mon amour, mon amour j’t'entends pas mon amour dis-moi où t’es allé, mon amour, mon amour…”.
Porque quando essa música toca no meu celular eu tenho vontade de vomitar eu te amo’s loucamente.
Mas enquanto isso fico aqui vomitando umas quase-vontades que tenho nesse corpo tépido e essa steaming mind.



